sexta-feira, 22 de junho de 2018

Viúvas Comendo

Eram cinco e meia da tarde e Lúcia, Teresa, Rita e Fátima pararam no café da Livraria. Como é culturalmente esperado em momentos como este, Lúcia vestia-se toda de preto.


“Sabe o que é ótimo para curar o luto?”, disse Fátima fitando Lúcia que olhava o cardápio sem nenhum objetivo. “Sexo. Eu curei o meu assim quando Marco Antônio morreu”. Teresa arregalou os olhos soltando um longo chiado daqueles de quando alguém começa a falar na sala de cinema.

“Eu vou querer o sanduíche de presunto parma daqui. É simplesmente delicioso”, anunciou Rita.

“Presunto? Você está falando sério?! Acabamos se sair de um cemitério. Você é muito insensível”, apontou Teresa com sua ética e compaixão pelas pessoas vivas e mortas.

“Eu vou querer igual ao da Rita”, disse Fátima. “É parma gente, com certeza não é da coxa de um humano. Inclusive acho que esse porco se alimentava bem melhor que Arnaldo”.

Arnaldo, o defunto, acabara de ser enterrado. Marido de Lúcia, sujeito alto e grisalho, era um daqueles que continuou trabalhando mesmo depois da aposentadoria. Foi o ultimo marido vivo entre as quatro amigas que se conheceram ainda na faculdade.

“Todas escolheram? Garçom!”, chamou Lúcia na intenção de que com os pedidos feitos e comida posta à mesa, aquelas bocas se encheriam e calariam. Embora estivesse desconfortável, ela não conseguiu se levantar e ir embora, assim como não conseguiu se separar em nenhum dos 36 anos de um casamento que propiciava a ela tanta solidão.

 O garçom aproximou-se, anotou atenciosamente com sua mão grande cada pedido. Era possível perceber os músculos definidos de seu antebraço à medida que deslizava a caneta Bic na folha. Os olhos azuis direcionavam-se ao caderninho grosso, tão grosso quanto as coxas que a calça preta de Brim não era capaz de disfarçar.

“Nossa, olha que pitéu”, cochichou Fátima olhando fixamente para as costas largas do garçom que se distanciava da mesa. “Tem horas que eu me arrependo de não ter matado Marco Antônio antes, sabia?. Agora estou aqui, com essa idade. Tendo que pagar para passar as mãos num homem desses. Mais nova, teria vários assim na minha cama. Um para cada dia da semana”.
“É verdade mesmo que você o matou?”, perguntou bem baixinho Rita, dando uma leve olhada para os lados.

Os pedidos chegam à mesa.

“Rita, meu amor, o cara era diabético, hipertenso, com problema de ácido úrico e compulsivo. Por causa dessa idiotice cultural da nossa época, só eu cozinhava. Não fazia nada sem açúcar, toda sexta na minha casa era dia de feijoada. O que eu fiz se não matá-lo? Mas não me arrependo mesmo. Só me arrependo de não ter colocado chumbinho na comida dele. Me passa o açúcar, Lúcia? Mais um sachêzinho, por favor. Vou tomar bastante em memória ao Marco Antônio”, disse Fátima entre gargalhadas estridentes.

“Eu acho horrível tudo isso, mas entendo perfeitamente. Vocês lembram a quantidade de remédios que eu tomava antes do Mario Alberto morrer? Minha analista dizia que era depressão crônica, por motivos da infância. Era nada! Foi só ele morrer e eu parei de me sentir pulando de precipícios. Nossa! Que delícia de presunto!”, confessou Rita enquanto dava generosas mordidas no sanduíche.

“Eu sofro até hoje com a morte do José Carlos. Ele era ótimo com as crianças. Mas você vai ver, Lúcia, vai ficando cada dia mais fácil lidar com a ausência dos nossos maridos”, disse Teresa, com um sorriso de piedade após um longo gole de café amargo.

“Obrigada, minha amiga. Mas preciso confessar que me sinto vazia e aliviada. Como nunca tivemos filhos, a nossa relação esfriou muito nos últimos dez anos. Éramos praticamente só duas pessoas que moravam na mesma casa”, disse Lúcia com lágrimas nos olhos, surpreendendo todas as amigas.

“Está vendo aí! Já conseguiu admitir uma coisa muito importante: o alívio”, disse Rita entregando à amiga um guardanapo.

Fátima se animou e, antes que o luto de Lúcia tomasse mais conta que o alívio, disse: “hmm, desse jeito a gente já pode pegar o telefone desse broto do garçom. Vai que ele também faz uns serviços domiciliares. Querido! Por favor!”

O garçom se aproximou prontamente.

“Pois não, senhora?”

“Qual seu nome?”

“Arnaldo.”

“Será que podemos ser atendidas por outra pessoa?”
Marcelle Martins

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