quarta-feira, 6 de junho de 2018

Chama o Síndico

Sei que me encontro no sono eterno e que, por isso, tenho o tempo de todas as eras futuras para continuar dormindo, mas, mesmo quando vivo, sempre detestei ser acordado. Cedo da matina ou tarde da madruga, o momento do descanso sempre foi sagrado para mim. Lembro bem disso e fui, por muitas vezes, mal interpretado por causa de minhas características naturais. Mas isso é outro papo.

Eis que, num dia de domingo, segundo o calendário do plano material, a paz do meu descanso celeste foi interrompida com gritos inflamados de ‘Chama o síndico! Chama o síndico!’. Desde que o Jorge – meu amigo da Tijuca – teve a ideia de me homenagear naquele famoso hit, mal ouço a palavra, já caio na besteira de achar que se trata da minha pessoa. Assustado, abri meus olhos. A visão me espantou ainda mais: a galera do pedaço muito exaltada e dois homens, que eu nunca tinha visto, completamente encharcados – o primeiro chegou em trajes esportivos e o segundo vestia o conhecido macacão alaranjado da companhia de limpeza local. Recém-chegados, os dois pareciam não acreditar nas circunstâncias que os trouxeram para o lado de cá; agitavam as mãos e os braços nervosamente, enquanto urravam palavrões e uma série de expressões de pura e desolada revolta. Estou acostumado com esse tipo de coisa. Desencarnar nem sempre é fácil. Leitor profundo de cosmologia que sou, entendo que tudo é tudo e nada é nada. O universo e a energia transcendem os limites da matéria. Tento dar essa força pra quem chega, mas, naquele dia não seria fácil, e com razão. Depois de algum esforço, com a consciência já desperta, ouvi o relato, que muito me estarreceu. 

A dupla, que não se conhecia no plano terrestre, tinha acabado de fazer a passagem nas imediações do bairro de São Conrado. Uma tal ciclovia panorâmica, construída ao longo da Av. Niemeyer, tinha desabado ao ser atingida por fortes ondas, lançando os dois para o meio do mar revolto. Ciclovia panorâmica?! Pode crê, amizade, e botaram o meu nome nela: “Ciclovia Tim Maia”. Me belisquei e o pesadelo era real. Ouçam bem, foi construída num pacotão de mega-obras para os Jogos Olímpicos da cidade do Rio de Janeiro. Pelo visto, meu sono foi longo! Longo o suficiente para que 44 milhões de reais fossem investidos num projeto faraônico – bonito, é verdade – mas feito em cima das coxas de quem colocou essa bufunfa na mala. O resultado é que, três meses depois, o negócio voou pelos ares porque foi mal calculado e, ainda por cima, mal aparafusado. Então, o colega que saiu para correr e cuidar da saúde, pagou com sua vida porque passou por ali na mesma hora em que o mar cresceu. O outro camarada, saiu para trabalhar e garantir a limpeza do novo cartão-postal, mas foi tragado de sua existência sem voltar para casa com o pão de cada dia. 

Como artista, vi de tudo quando em vida; muita sacanagem e exploração do talento alheio. Casas noturnas atrasando o início do show para vender mais whisky falsificado, órgãos de arrecadação rabiscando borderôs, emissoras de televisão enquadrando quem não dançava conforme a música... mas nada se compara às consequências trágicas daquele relato. Eu, que sempre fui doce e sonhador, um poeta de versos simples, tive que usar palavras duras para extravasar minha ira diante de tanta impotência e desencanto. Me juntei ao coro dos gritos:

– Não me interessa se vai do Leme ao Pontal! Manda tirar o meu nome dessa merda!
Mas não tiraram.
Lá da rampa, mandam avisar que o dinheiro será devolvido quando setembro chegar.
Sei... num envelope azul índigo?
Chama logo o síndico! E que fique bem claro, não sou eu!

Janaína Perotto
Maio - 2018

2 comentários:

Viúvas Comendo

Eram cinco e meia da tarde e Lúcia, Teresa, Rita e Fátima pararam no café da Livraria. Como é culturalmente esperado em momentos como e...