quarta-feira, 30 de maio de 2018

Sob medida


Foi-me dada a tarefa de escrever a partir da frase “sou um homem sob medida”. Com o tilintar de uma sensação muito antiga danou-se a tocar na minha caixola “Começar de novo”. Composta por dois homens para uma série de TV criada e dirigida por outro homem, “Começar de novo” foi uma canção icônica que junto com a série embalou muitas rupturas das mulheres daqueles tempos com seus casamentos que, de certo, o faziam sob os versos:
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio

Eu, muito criança ainda, ficava intrigada com algumas palavras novas. Moldura, escora e espora.... Naqueles tempos, dúvida de criança não era objeto de muita atenção. Ali, pelos cinco anos, fui aprendendo sozinha o sentido das dualidades fantasma e moldura, espora e fascínio, mesmo que hoje me soe um pouco piegas. Enquanto isso, lá mesmo na minha família ia se gestando algo parecido. É possível que alguém argumente que não foi a série que influenciou comportamentos, mas sim o contrário. Fato é que tenho severas desconfianças que a separação dos meus pais foi porque minha mãe achou aquilo tudo muito bonito. E achou mais bonito ainda começar de novo e contar consigo.

Memória tem trilha sonora e pelas corruptelas do pensamento fiquei achando que a frase que devia me deter era “sou um homem emoldurado”, aí liguei a essa canção, que ligou a essa dúvida infantil e, por fim, a um disco que compôs parte importante da minha trilha e, neste mesmo disco, conheci a canção “Sob medida”. Pronto: fechou a Gestalt!

Alguém se lembra do LP Simone, ao vivo no Canecão (1979)? Sim, é a mesma Simone do “então é Natal”, mas naqueles tempos havia um quê de revolucionário nela. Sim, é verdade, havia! As capas sensuais de gosto muito duvidoso, seu casamento com uma modelo/atriz, canções que falavam de desejo, enfim... havia nela uma certa ousadia. Hoje, sou capaz de supor que essa ousadia talvez não fosse dela, mas de um produto artístico que estava a surgir, depois a mesma Simone foi se encaixando em tantos outros produtos. Mas isso já não importa.

Ainda hoje lembro da sequência das canções do LP, das entradas e, muito especialmente, do pout-porri que começa e termina com “Sob medida” (Chico Buarque – 1979) e vai sendo costurado com os versos de “Orgulho” (Waldir Rocha e Nelson Wederkind – 1957), “Vingança” (Lupicínio Rodrigues – 1951), “Matriz ou filial” (Lúcio Candim – 1974), “Que será?” (Marino Pinto e Mário Rossi – 1950) e “Volta” (Lupicínio Rodrigues – 1963). Todas girando na temática do vai-e-vem dos amores, mas com desfecho emancipador, eu diria.

Por alguns anos eu pedia (e ganhava!) os lançamentos da Simone de presente de aniversário. Os da Bethânia não precisava pedir, alguém providenciava. Álibi de 1978, outro LP de capa preta, também é peça fundamental desse mosaico, mas isso já é assunto para outro dia. O que quero dizer é que foi assim, através das cantoras de MPB, com todos os trocadilhos que isso possa sugerir, que me fiz mulher. Tornei-me mulher quando vesti as roupas que só cabiam a mim. Sou uma mulher sob medida, as minhas medidas. “Se ajeite comigo. E dê graças a Deus!”.

Mirella Amorim
Exercício do Laboratório de Escrita Criativa – Escolas Passagens – 28/05/2018

5 comentários:

  1. Mirella, curioso que a atriz que interpretou a sociologa na serie da Globo da qual você fala, hoje é simbolo do latifundio e encarnaçao da anti-modernidade no Brasil! Olha, eu tambem torcia pela personagem e, se nao fiquei melhor, fiquei menos pior como homem. Sua cronica é otima. Se faltou alguma coisa foi na medida da Marcia por que você está pedindo passagem. Alias, proponho para você aquela marchinha antiga: Ó abram alas que eu quero passar! Antonio

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  2. Ah Antônio, só você ! Muita gentileza sua. O importante é seguir exercitando.

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  3. Texto excelente e extremamente familiar. Deve ser porque tenho algo de Amorim... Não tenho as mesmas dúvidas e medidas, mas também sou chegada numas medidas pessoais e instransferiveis. Será que é mesmo o tal do Amorim? Sei não, mas o disco é emblemático, a tal série também e o pout-porri nem se fala! Vida longa aos seus exercícios!

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