quinta-feira, 1 de março de 2018

A Loira do Banheiro Branco

O Encontro das Almas de Nequitz Miguel
Sexta feira, 21 de março de 2008 - manhã.  Inerte, no piso branco e gelado, o corpo branco e gelado de Sara, no banheiro branco e gelado da escola branca, com as mensalidades rigorosamente em dia.
O topo da cabeça exibia uma ferida contusa de uns quatro centímetros, sujando de vermelho o cabelo loiro de Sara, que enfeitava uma cabeça pouco habitada. Olhos abertos verdes e vidrados. Tênis da marca Vans apontando o teto. Outra mancha vermelha na quina aguda da pia. Uma garrafinha para água mineral vazia. Crianças e adolescentes ao redor gritando e correndo em câmera lenta.
Era no banheiro asséptico que Sara se refugiava das opressões da escola e da vida. Era no banheiro que sorvia grandes goles de vodka sabor vanilla, recém adquirida por sua família no free shop, enquanto se livrava da tortura das aulas de professores nem tão assépticos. Assepsia também é algo de que se padece.
Expirado o período de purgação pelo qual devem as almas passar na terceira dimensão, a jovem alma impurgável passou a assombrar banheiros femininos de escolas. Indistintamente. Até mesmo escolas que para aquela alma em vida eram invisíveis. Felizes ou com choro e ranger de dentes.
Conta a lenda que se uma estudante chamar três vezes por seu nome e em seguida acionar a descarga da privada, a figura alva e mortificada se materializa no banheiro, olhos ainda vidrados, e nas mãos uma folha de A4 com os dizeres: “é assim que uma antifeminista se parece” – em inglês. Sorte das escolas que nem descarga no banheiro têm.

Vaneska Mello


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