segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ménage à Trois (Tristam Bernard – França + (1947)

Arte Jean Michel Basquiat

Protagonista (s) Eduardo-Edmundo (Gêmeos Xifópagos)



Até minha avó Milu, que entrava muda e saia calada, já dizia que política, religião e futebol não se discute.

Essa sabedoria instintiva, que até vó Milu sabia, dá-se porque, nestas ciências, antes da reflexão vem a paixão. Dito isso, passo a contar o chiste que o destino, este fanfarrão, fez com Eduardo-Edmundo. Nascidos iguais e unidos, partilhando a mesma placenta, cueiros, chuveiros, vasos, sermões, bençãos e torcida de futebol, foram nossos amigos surpreendidos, nos calores de uma tal jornada de junho de 2013, pela terrível descoberta de que um era coxinha e o outro, mortadela.

Um abalo sísmico 7.0 na escala Richter dos siameses.

O equilíbrio, o respeito, a aceitação do outro onipresente, até ali mantidos com louvor,mas a duras penas, esfacelaram-se.

Eduardo, neófito na política, encantou-se pela ira santa contra a corrupção, que logo percebeu cair como uma luva a encobrir os dedos do preconceito social e de um certo egoísmo meritocrático.

Edmundo, consternado, viu nascer do seu lado do corpo um ativista social, um quase-socialista mezzo-intelectual, mezzo de esquerda.

Assim, nos protestos domingueiros via-se, com espanto, um sorridente Eduardo de espumante na mão, enquanto, grudado a sua esquerda, um contrariado Edmundo cobria o rosto com a camisa do Che.

No reverso, em tardes de bombardeio na Cinelândia, Edmundo afirmava que Lula, ladrão, roubou o seu coração, enquanto Eduardo, enojado, protegia os olhos do gás lacrimogêneo.

E como tudo precisa se regularizar entre os xifópagos, passaram a conversar apenas sobre o clima.

Magaly Barroso

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