domingo, 21 de janeiro de 2018

Último dia

Nem era tão tarde assim e eu já não conseguia abrir os olhos direito. Quase todos os dias, quando a noite cai, a penumbra de um deserto entre o lado esquerdo e o lado direito do peito começa a queimar. Acontece que alguns demônios não nos largam tão fácil. Fui até a cozinha e decidi fazer um chá de alecrim, dizem que acalma. Aproveitei para tomar o Alprazolam. Ouvia Pink Floyd tocando no rádio; tudo morbidamente sincronizado. Algumas bebidas na geladeira. No entanto, nenhuma delas me parecia tão sedutora quanto a aguarrás debaixo da pia. Apaguei as luzes e tirei a roupa. Àquela altura não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Caminhei até o banheiro, abri a torneira da pia, a ducha higiênica e entrei no box. Fechei o ralo, abri o chuveiro no máximo e amarrei forte uma ponta da gravata do Tomás na torneira e a outra no meu pulso esquerdo. Deitei no azulejo que casava com a frieza das minhas entranhas. Aspirei aquele cheiro de vísceras pútridas de um corpo enterrado há oito semanas. Moribunda por dentro comecei a apodrecer bem antes do que pudesse perceber. A essa altura a água já escoara por debaixo da porta e invadira o corredor. Ouvia os passos do vizinho de cima. Aquele babaca pisava tão forte que mesmo com o marulho eu o ouvia como se seu calcanhar desse de ponta na minha moleira. Fechei os olhos e pude sentir a leveza de meu cabelo encharcado. Imensa, pensei em desistir, só não tive forças para levantar. Grogue, me encontrava incapaz de tentar qualquer coisa. Era só esperar e aceitar que os caminhos inóspitos não fariam mais parte de mim e eu deles; seguiríamos melhor assim. Quando foi mesmo que desisti de viver, me perguntava sem resposta. Sabia que aquele desgraçado que enfiou a mão dentro da minha calcinha na rede da casa da minha avó, quando tinha 5 anos, tinha me feito estragada. Quando contei à minha mãe e ela me disse que ele era o tio que mais me amava; quando tentei contar ao meu pai e ele me disse - antes mesmo que pudera terminar de falar – para nunca mais mencionar isso em voz alta, senti meus órgãos ressecarem como quando uma uva fica exposta ao sol por cinco dias. A diferença é que as uvas secas viram passas; por dentro eu virei merda. E depois teve o Rogério. Esse sim, me fodeu. Toda vez que me obrigava a ficar de quatro e me chamava de vagabunda estava no meu lugar comum. Como se meu corpo estivesse vencido e minha alma familiarizada com aquela posição. De quatro, como uma cadela no cio. Só que as cadelas sentam no chão e só cruzam com o cachorro que querem. Eu não tinha forças para dobrar os joelhos e descer as ancas. O Rogério brincou com minha fraqueza e sabia como dominar a minha falta de auto-amor. A água já me cobriu, estou sufocada. Fico feliz porque junto de mim vai embora a dor. Me arrependo no segundo seguinte e quero levantar, mas parece que os seis comprimidos de Alprazolam fizeram efeito.

(Marcelle Martins)

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