sexta-feira, 24 de novembro de 2017

tombo

Ilustração Maria Leontina
primeiro dia e a palestra já prega minhas pálpebras. vem essa risada neon sobre o preto do sono e o entorno todo ganha cor. esbarrei nela assim.
ofélia chegava e era som de botas no corredor. trazia lanche pra mim todos os dias e por meses nos estendemos sobre a outra, sempre desejando mais da vida. fomos à praia e ela embaralhada na areia me pede poemas. falo dos cometas e ela chora de raiva. reina em mim o desejo de que estar, de repente, não fosse esse peso pra ela. mas era.
acordo com o nariz sangrando. ofélia foi do terceiro andar de encontro ao chão. digo não repito não meio abafada de mim mas por dentro já sabia: a gravidade vinha desde sempre, em doses homeopáticas, agindo sobre o cometa ofélia.

chego atrasada no ateliê onde o professor marcelo lins - só consigo chamá-lo pelo nome todo - risca com o estilete a transparência do acetato: ''me atraem os borrões'' diz marcelo lins. penso nas minhas cicatrizes e ofélia volta como o estilete fino e chega rasgando a cena toda. lembrar dela é sempre abrir mais cortes sobre o mesmo corte.
Dora de Assis Dacosta

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Viúvas Comendo

Eram cinco e meia da tarde e Lúcia, Teresa, Rita e Fátima pararam no café da Livraria. Como é culturalmente esperado em momentos como e...