quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Sete Anos

Cândido Portinari, Meninos Pulando Carniça, 1957
Minha noite tinha sido péssima. Cheguei do colégio e fiquei parado, quieto ao lado da pia da cozinha. Observava minha mãe terminando o almoço. Ela sentiu minha presença, parou, com certo incomodo nos entreolhamos por um tempo. Minha mãe rompeu o silêncio. Venha cá, me dê um beijo. Tenho saudades do carinho que você tinha por mim quando era criança, sabe? Não quis que ela percebesse que lhe dei o beijo a contragosto. Eu não consigo mais sentir o mesmo carinho. Ela estava ali, fazendo meu bife, o feijão cheirava longe. Sim, só dona Glória faz aquele feijão que tem o cheiro de casa e o sabor de infância. Talvez essa fosse uma razão pela qual admirá-la. Com um olhar nostálgico e certa melancolia na voz ela me diz que a comida está pronta, e que vai buscar meu avô para almoçarmos todos juntos. Talvez ela também não me admire.
Vovô sentou-se à mesa, me olhou com um sorriso terno e disse, Você gostou do carrinho de madeira que o vovô fez para você? Se você comer tudo direitinho, sem deixar nada no prato, podemos pintá-lo depois do almoço, que tal?
Vovô hoje acordou há sete anos atrás. Eu tinha um carrinho vermelho, um dos poucos presentes que ganhei de meu pai na infância. Uma tarde, enquanto eu brincava com outros meninos na rua, um vizinho sem querer o quebrou, passei a noite inteira chorando aquele carrinho. No dia seguinte vovô, que passou a vida montando estantes, portas, armários, e móveis de madeira para os outros, levantou bem cedo, juntou uns pedaços de sobras madeira e me fez outro carrinho. Quando eu cheguei da escola foi uma festa. Eu quase não acreditava naquele carrinho, embrulhado em um laço vermelho em cima da minha cama.
Nós ali almoçando, os brilhantes olhos de meu avô, e eu respondi: claro vovô, vamos pintar o carrinho. Minha mãe me olhou com reprovação, mas escolheu o silêncio. Almocei correndo e anunciei que iria até o quarto pegar o carrinho. Corri na papelaria do outro lado da rua de casa, comprei tinta vermelha. Voltei para a cozinha a tempo de vovô não ter mudado de memória, sentamos no quintal e juntos repintamos nosso carrinho. Ele olhava para a criança que eu fui um dia. Não sei bem quando que esse sorriso se perdeu de meu avô. Olhei para a janela da cozinha, minha mãe lavava a louça chorando. Suas lágrimas não me alcançavam.

Camila de Mario

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