quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Qual o seu nome?

Carybé, sem título
A Lua  esplendorosa  no céu reina soberana.  Primeiro dia de seu círculo perfeito e completo. A festa começa animada.  
As barracas  de  rua assistem ao vai e vem dos interessados no que não interessa. Em festas de rua  sempre se vende o que não se quer comprar.  Passo despercebido entre elas. A festa na verdade é isso. É o simples passar. Caminho entre as barracas procurando com o que me refrescar neste calor absurdo. 
A movimentação é intensa na barraca de cerveja. Só me meto a digladiar porque a necessidade é grande. Dessas necessidades que não se explica. Cumpre-se a ordem  e aceita-a  sem conflitos.
Enquanto aguardo a birra, vejo passar pelo meu ângulo de visão uma dessas imagens estonteantes, que não se quer e nem se deve esquecer jamais. Ela…  linda… morena… nem alta, nem baixa - altura certa para o gênero feminino, penso eu. Sorriso largo e maroto, daqueles que revelam o teor alcoólico de seu espírito. O vestido lhe cai dos ombros, que são largos, se ajusta na cintura, modelando seu corpo e se abre em meia roda ao chegar em suas grossas coxas, me fazendo suar.
Graças a Deus chegou a  cerveja!
Nada me impede  e nem posso  deixar de segui-la em todos seus movimentos. Percebo quando ela focada e distraída  remete  seu olhar em direção  de  um verdadeiro Deus de ébano,  negro alto, forte, músculos bem formados, trajando moletom cinza  e sem cueca. Vejo    seus olhos brilharem  mais que a lua no céu.
Emolduro todo o cenário, e admirado  acompanho  tudo como se fosse um filme digno de um Oscar.  No cenário as luzes da rua em contraposição as luzes coloridas das barracas. O colorido dos artesanatos, o cheiro dos quitutes. Tudo conspirando.  
Seguindo-a  vejo quando ela  se encaminha para o meio da rua. Bem para o  meio da rua. Uma dessas encruzilhadas   -  como se diria em cruz. Estando ela no  epicentro,  com a festa toda ao seu redor,  em um movimento orquestrado ergue o braço direito até o cotovelo chegar na altura de seu busto volumoso, e em posição de caneca de chá, pousa o braço esquerdo suavemente na cintura destacada , e então com o indicador da mão direita em riste ela o flexiona em sinal claro de convite ao  Divino, obviamente surpreso.
Incrédulo, ele  movimenta a cabeça e o braço em direção ao peito  como a se   perguntar: É comigo?
Ela assente. Ele então se dirige até ela  e diz: “Minha esposa  está próxima  de nós, em outra barraca a comprar pantufas!”
Ela olha-o fixamente como se  pensando falasse : E?
Vejo quando ele rapidamente se afasta e mais rápido ainda retorna resfolegante, enlaça-a pela cintura e a carrega para uma rua transversal mais tranquila, perto e longe  da festa.
Não perco isso por nada, penso. Mas para isso preciso de mais uma cerveja. E volto a me engalfinhar por uma.  Desta vez com mais sede.
Não vou conseguir assistir a isso sóbrio!
Pego a gelada e vou correndo e andando aos trôpegos na direção em que os deixei.  E logo os percebo. Os  dois em longos beijos , destes de não identificarmos quem está em quem.
Os beijos ardentemente  trocados agregados  ao movimento frenético de seus corpos denunciam uma cópula pública,  criminal, intensa e sorrateira.  
Na mesma velocidade que começou, termina. Os movimentos cessam, as pernas dela descem da cintura dele, as bocas se  afastam, o olhar baixa, as mãos abaixam a saia. Ele se ajeita.
E aliviado pergunta: “Qual o seu nome branquinha?”
Ela  responde: “Não perguntei o seu!”
Preciso de mais uma cerveja!

Cristina Furst


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