terça-feira, 21 de novembro de 2017

O cão da profunda liberdade

Menina com um cão branco, 1952, Lucian Freud

Três da manhã, silêncio, hora do demônio, meu único momento de paz. Levantei sem fazer barulho, tentei não acordar minha mulher. Vesti agasalhos e luvas e saí.Acenei para os vigias, eles já entenderam minha rotina das noites.Segui sozinho descendo a rua, caminhando sem destino, ouvindo apenas meu ego. O cheiro de inverno me beijou e pisei em neve fresca.
Andei pelas ruas do bairro, a essa hora inabitado. O jornaleiro ainda não recebeu as notícias da manhã. Eu já sabia o que seria novidade.Poucos sabem do futuro mais que um político. Diminuí minha velocidade ao ouvir passos ao longe.Ritmo estranho, não parecia humano. Na direção do som nada vi, breu encobria a frente. Eu continuei em direção ao perigo.
Detrás dos carros ele surgiu.Maior do que eu havia imaginado, pior do que a solidão da noite. Seria quase da minha altura se estivesse de pé, ali se mantinha de quatro chafurdando o lixo feito um animal. Era a própria besta.Ao perceber minha presença, levantou a cara.Rosnou. Cachorro infernal. Mostrava os dentes e os caninos ansiavam minha carne. Segura o espólio da noite feito cérbero com a alma dos vivos. Seria eu seu mais novo prisioneiro. Quando fui cair na imensidão do tártaro? Este não era um cão amoroso.Não limparia minhas lágrimas, nem me desviaria do abismo, no entanto era eu o louco.
Petrifiquei.       
Sangue manchava seu pelo branco. O medo subiu feito droga. Da sua boca pingava o resto da carne.Minhas veias se tornaram gelo.Seus músculos saltavam marcados pela lama. O oxigênio fugiu de meus pulmões. Seus olhos negros ameaçavam em sua cara longa de mandíbula aberta. Não contive o desespero.
O bicho resolveu andar, veio como rei que não se apressa. Pata a pata, exalava a tranquilidade de um carrasco no abate. Esvaziou-se toda minha mente, sem mais economia, sem nenhuma política. Só eu e o cão.
Cada momento mais perto, cada metro devorado pelas garras infernais.Seria eu a próxima presa. Era eu o porco e ele o lobo. Segurei o grito e me escondi atrás das pálpebras assim que o encontro se tornou iminente.Passaram-se minutos e só voltei a viver quando vi o rabo tilintante a se distanciar. A morte passou a me dar aviso.Sem dúvida, não escaparei na próxima. Os dias seguintes não se esclareceram. Passei horas pensando naquela noite e naquele encontro.Não há aviso sem propósito.


Leo Nunes

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