domingo, 19 de novembro de 2017

(des)biografia (des)autorizada

Filhote de Dragão, 1985, Marcelo Grassmann
não. não nasci. mineiro, barroso e barroco, fui nascido pro regozijo de pais gravemente felizes. e pra rechear de sarcasmos a incúria de deuses perversos.
não. não cresci. fui crescido pelos choques permanentes de realidade. e pela vontade de descobrir - sem nunca encontrar - onde a vida original se escondia.
não. nunca fui dado ao verbo. em mim, sentimentos sempre excederam palavras. meu melhor amigo sempre foi o inexprimível.
não. jamais fiz o que esperavam de mim. não tive filhos. seria perversidade minha perpetuar vidas num terreno tão inóspito.
não. raramente fui compreendido. minhas virtudes sempre foram motivo de escárnio e meus defeitos, celebrados. o mundo repudia lentidão e delicadezas, mas sempre tece loas à vaidade.
não. não fui feliz no amor.  ainda  que a cartografia dos meus afetos seja vasta, amar era zarpar e eu sempre preferi a falsa segurança do cais.
não. lamentavelmente nunca fui rebelde. fui adestrado pela ordem vigente e pela sedução narcísica do mundo. o excesso de lucidez também me desidratou os sonhos.
não. não me considero um deprimido crônico. respiro mecanicamente a passagem do tempo, mas o desejo ainda me acompanha.  na vertigem de existir ainda me engravido de mundo.
não. não tenho medo da morte. contudo, morrerei sem estar pronto. não para a morte, mas para a vida. viver é um construir sem fim. um acontecer sempre inacabado.
não. não creio em eternidade. sou místico-ateu-materialista. nasci peixe, no verão. quero morrer estrela, no inverno.


Rodrigo Barroso Fernandes

Um comentário:

  1. muito bom, gostei muito, especialmente do místico - ateu - materialista.

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