quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Crônica – DNA

Branca de neve brincando com o troféu de seu pai, Paula Rego, 1995

Abro a porta. Silêncio ensurdecedor.
_ Anybody home?
Paro. Escuto. A babá já foi. Sim, ela está em casa. Onde iria? Nunca sai sem avisar... Ajuizada, quieta, circunspecta. Porta do quarto fechada. Seus dias são sempre povoados de livros, música estranha, diálogos sussurrantes...
Com ela aprendi a ausência presente. Quem visita a casa não sonha que há uma criança nela. Quando uma gargalhada ousa romper a atmosfera, disparo ao seu encontro como numa emergência para usufruir do momento. Ocasião rara.
Como pude gerar um ser tão diferente de mim? DNA errante... encostou no pai. À mãe coube, os enjôos, a gestação, o zêlo, o amor incondicional.
Agora já adulta encontrou parceria silente, alma gêmea.
Na nova casa só mansidão e o miado de uma gata.
Nunca mais o mesmo teto... mãe incomoda.


Jacirene Galante

Um comentário:

  1. Lindo, colorido (tons sóbrios e pastéis), cheiro de conforto, com pitadas de amadurecimento. Quero mais.

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