sexta-feira, 24 de novembro de 2017

tombo

Ilustração Maria Leontina
primeiro dia e a palestra já prega minhas pálpebras. vem essa risada neon sobre o preto do sono e o entorno todo ganha cor. esbarrei nela assim.
ofélia chegava e era som de botas no corredor. trazia lanche pra mim todos os dias e por meses nos estendemos sobre a outra, sempre desejando mais da vida. fomos à praia e ela embaralhada na areia me pede poemas. falo dos cometas e ela chora de raiva. reina em mim o desejo de que estar, de repente, não fosse esse peso pra ela. mas era.
acordo com o nariz sangrando. ofélia foi do terceiro andar de encontro ao chão. digo não repito não meio abafada de mim mas por dentro já sabia: a gravidade vinha desde sempre, em doses homeopáticas, agindo sobre o cometa ofélia.

chego atrasada no ateliê onde o professor marcelo lins - só consigo chamá-lo pelo nome todo - risca com o estilete a transparência do acetato: ''me atraem os borrões'' diz marcelo lins. penso nas minhas cicatrizes e ofélia volta como o estilete fino e chega rasgando a cena toda. lembrar dela é sempre abrir mais cortes sobre o mesmo corte.
Dora de Assis Dacosta

Maqui(n)ar

Sarah se olhou no espelho. Tinha entrado há pouco no quarto de hotel. Pegou o estojo de maquiagem e foi para o banheiro. Primeiro a base. Cor da pele; granulada. Depois, cada uma das pálpebras. O pincel macio espalhando a sombra púrpura. Acima de um olho. Acima do outro olho. Realce de leve, logo abaixo dos dois olhos.
Delineador preto. Fininho. O contorno do olhar. Fios repuxando o pensamento para longe. Ao balançar a cabeça traz de volta a atenção para o espelho do banheiro. Agora o rímel. Cílios bem definidos. Curvilíneos.
Blush bem sutil. Nada exagerado. Apenas um efeito de simpatia em um rosto apático.
Finalmente o batom. Fugiu do vermelho clichê. Decidiu pelo chocolate profundo. Satisfeita com o resultado, sorriu para si mesma.
Saiu do banheiro. Deixou o estojo de maquiagem na cabeceira da cama e pegou a maleta que estava sobre ela. Foi caminhando em direção à janela. Conforme andava, ia abrindo a maleta. A música casa vez mais próxima.
Posicionou o corpo no quadrado da janela. Sentiu forte cada um dos coices da arma que segurava. Enquanto sentia a vibração no corpo, via diversos pequeninos corpos, à distância, caindo. Abandonando para sempre a pista de dança.

Depois de muitos tiros – não fazia ideia de quantos – ainda anestesiada, voltou para o espelho do banheiro. Mirou entre os lábios-chocolate e não teve tempo nem para ver o tom vermelho que dispensara. Apenas caiu. Boquiaberta.

Renata Del Vecchio

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O cão da profunda liberdade

Menina com um cão branco, 1952, Lucian Freud

Três da manhã, silêncio, hora do demônio, meu único momento de paz. Levantei sem fazer barulho, tentei não acordar minha mulher. Vesti agasalhos e luvas e saí.Acenei para os vigias, eles já entenderam minha rotina das noites.Segui sozinho descendo a rua, caminhando sem destino, ouvindo apenas meu ego. O cheiro de inverno me beijou e pisei em neve fresca.
Andei pelas ruas do bairro, a essa hora inabitado. O jornaleiro ainda não recebeu as notícias da manhã. Eu já sabia o que seria novidade.Poucos sabem do futuro mais que um político. Diminuí minha velocidade ao ouvir passos ao longe.Ritmo estranho, não parecia humano. Na direção do som nada vi, breu encobria a frente. Eu continuei em direção ao perigo.
Detrás dos carros ele surgiu.Maior do que eu havia imaginado, pior do que a solidão da noite. Seria quase da minha altura se estivesse de pé, ali se mantinha de quatro chafurdando o lixo feito um animal. Era a própria besta.Ao perceber minha presença, levantou a cara.Rosnou. Cachorro infernal. Mostrava os dentes e os caninos ansiavam minha carne. Segura o espólio da noite feito cérbero com a alma dos vivos. Seria eu seu mais novo prisioneiro. Quando fui cair na imensidão do tártaro? Este não era um cão amoroso.Não limparia minhas lágrimas, nem me desviaria do abismo, no entanto era eu o louco.
Petrifiquei.       
Sangue manchava seu pelo branco. O medo subiu feito droga. Da sua boca pingava o resto da carne.Minhas veias se tornaram gelo.Seus músculos saltavam marcados pela lama. O oxigênio fugiu de meus pulmões. Seus olhos negros ameaçavam em sua cara longa de mandíbula aberta. Não contive o desespero.
O bicho resolveu andar, veio como rei que não se apressa. Pata a pata, exalava a tranquilidade de um carrasco no abate. Esvaziou-se toda minha mente, sem mais economia, sem nenhuma política. Só eu e o cão.
Cada momento mais perto, cada metro devorado pelas garras infernais.Seria eu a próxima presa. Era eu o porco e ele o lobo. Segurei o grito e me escondi atrás das pálpebras assim que o encontro se tornou iminente.Passaram-se minutos e só voltei a viver quando vi o rabo tilintante a se distanciar. A morte passou a me dar aviso.Sem dúvida, não escaparei na próxima. Os dias seguintes não se esclareceram. Passei horas pensando naquela noite e naquele encontro.Não há aviso sem propósito.


Leo Nunes

domingo, 19 de novembro de 2017

(des)biografia (des)autorizada

Filhote de Dragão, 1985, Marcelo Grassmann
não. não nasci. mineiro, barroso e barroco, fui nascido pro regozijo de pais gravemente felizes. e pra rechear de sarcasmos a incúria de deuses perversos.
não. não cresci. fui crescido pelos choques permanentes de realidade. e pela vontade de descobrir - sem nunca encontrar - onde a vida original se escondia.
não. nunca fui dado ao verbo. em mim, sentimentos sempre excederam palavras. meu melhor amigo sempre foi o inexprimível.
não. jamais fiz o que esperavam de mim. não tive filhos. seria perversidade minha perpetuar vidas num terreno tão inóspito.
não. raramente fui compreendido. minhas virtudes sempre foram motivo de escárnio e meus defeitos, celebrados. o mundo repudia lentidão e delicadezas, mas sempre tece loas à vaidade.
não. não fui feliz no amor.  ainda  que a cartografia dos meus afetos seja vasta, amar era zarpar e eu sempre preferi a falsa segurança do cais.
não. lamentavelmente nunca fui rebelde. fui adestrado pela ordem vigente e pela sedução narcísica do mundo. o excesso de lucidez também me desidratou os sonhos.
não. não me considero um deprimido crônico. respiro mecanicamente a passagem do tempo, mas o desejo ainda me acompanha.  na vertigem de existir ainda me engravido de mundo.
não. não tenho medo da morte. contudo, morrerei sem estar pronto. não para a morte, mas para a vida. viver é um construir sem fim. um acontecer sempre inacabado.
não. não creio em eternidade. sou místico-ateu-materialista. nasci peixe, no verão. quero morrer estrela, no inverno.


Rodrigo Barroso Fernandes

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Crônica – DNA

Branca de neve brincando com o troféu de seu pai, Paula Rego, 1995

Abro a porta. Silêncio ensurdecedor.
_ Anybody home?
Paro. Escuto. A babá já foi. Sim, ela está em casa. Onde iria? Nunca sai sem avisar... Ajuizada, quieta, circunspecta. Porta do quarto fechada. Seus dias são sempre povoados de livros, música estranha, diálogos sussurrantes...
Com ela aprendi a ausência presente. Quem visita a casa não sonha que há uma criança nela. Quando uma gargalhada ousa romper a atmosfera, disparo ao seu encontro como numa emergência para usufruir do momento. Ocasião rara.
Como pude gerar um ser tão diferente de mim? DNA errante... encostou no pai. À mãe coube, os enjôos, a gestação, o zêlo, o amor incondicional.
Agora já adulta encontrou parceria silente, alma gêmea.
Na nova casa só mansidão e o miado de uma gata.
Nunca mais o mesmo teto... mãe incomoda.


Jacirene Galante

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Qual o seu nome?

Carybé, sem título
A Lua  esplendorosa  no céu reina soberana.  Primeiro dia de seu círculo perfeito e completo. A festa começa animada.  
As barracas  de  rua assistem ao vai e vem dos interessados no que não interessa. Em festas de rua  sempre se vende o que não se quer comprar.  Passo despercebido entre elas. A festa na verdade é isso. É o simples passar. Caminho entre as barracas procurando com o que me refrescar neste calor absurdo. 
A movimentação é intensa na barraca de cerveja. Só me meto a digladiar porque a necessidade é grande. Dessas necessidades que não se explica. Cumpre-se a ordem  e aceita-a  sem conflitos.
Enquanto aguardo a birra, vejo passar pelo meu ângulo de visão uma dessas imagens estonteantes, que não se quer e nem se deve esquecer jamais. Ela…  linda… morena… nem alta, nem baixa - altura certa para o gênero feminino, penso eu. Sorriso largo e maroto, daqueles que revelam o teor alcoólico de seu espírito. O vestido lhe cai dos ombros, que são largos, se ajusta na cintura, modelando seu corpo e se abre em meia roda ao chegar em suas grossas coxas, me fazendo suar.
Graças a Deus chegou a  cerveja!
Nada me impede  e nem posso  deixar de segui-la em todos seus movimentos. Percebo quando ela focada e distraída  remete  seu olhar em direção  de  um verdadeiro Deus de ébano,  negro alto, forte, músculos bem formados, trajando moletom cinza  e sem cueca. Vejo    seus olhos brilharem  mais que a lua no céu.
Emolduro todo o cenário, e admirado  acompanho  tudo como se fosse um filme digno de um Oscar.  No cenário as luzes da rua em contraposição as luzes coloridas das barracas. O colorido dos artesanatos, o cheiro dos quitutes. Tudo conspirando.  
Seguindo-a  vejo quando ela  se encaminha para o meio da rua. Bem para o  meio da rua. Uma dessas encruzilhadas   -  como se diria em cruz. Estando ela no  epicentro,  com a festa toda ao seu redor,  em um movimento orquestrado ergue o braço direito até o cotovelo chegar na altura de seu busto volumoso, e em posição de caneca de chá, pousa o braço esquerdo suavemente na cintura destacada , e então com o indicador da mão direita em riste ela o flexiona em sinal claro de convite ao  Divino, obviamente surpreso.
Incrédulo, ele  movimenta a cabeça e o braço em direção ao peito  como a se   perguntar: É comigo?
Ela assente. Ele então se dirige até ela  e diz: “Minha esposa  está próxima  de nós, em outra barraca a comprar pantufas!”
Ela olha-o fixamente como se  pensando falasse : E?
Vejo quando ele rapidamente se afasta e mais rápido ainda retorna resfolegante, enlaça-a pela cintura e a carrega para uma rua transversal mais tranquila, perto e longe  da festa.
Não perco isso por nada, penso. Mas para isso preciso de mais uma cerveja. E volto a me engalfinhar por uma.  Desta vez com mais sede.
Não vou conseguir assistir a isso sóbrio!
Pego a gelada e vou correndo e andando aos trôpegos na direção em que os deixei.  E logo os percebo. Os  dois em longos beijos , destes de não identificarmos quem está em quem.
Os beijos ardentemente  trocados agregados  ao movimento frenético de seus corpos denunciam uma cópula pública,  criminal, intensa e sorrateira.  
Na mesma velocidade que começou, termina. Os movimentos cessam, as pernas dela descem da cintura dele, as bocas se  afastam, o olhar baixa, as mãos abaixam a saia. Ele se ajeita.
E aliviado pergunta: “Qual o seu nome branquinha?”
Ela  responde: “Não perguntei o seu!”
Preciso de mais uma cerveja!

Cristina Furst


Sete Anos

Cândido Portinari, Meninos Pulando Carniça, 1957
Minha noite tinha sido péssima. Cheguei do colégio e fiquei parado, quieto ao lado da pia da cozinha. Observava minha mãe terminando o almoço. Ela sentiu minha presença, parou, com certo incomodo nos entreolhamos por um tempo. Minha mãe rompeu o silêncio. Venha cá, me dê um beijo. Tenho saudades do carinho que você tinha por mim quando era criança, sabe? Não quis que ela percebesse que lhe dei o beijo a contragosto. Eu não consigo mais sentir o mesmo carinho. Ela estava ali, fazendo meu bife, o feijão cheirava longe. Sim, só dona Glória faz aquele feijão que tem o cheiro de casa e o sabor de infância. Talvez essa fosse uma razão pela qual admirá-la. Com um olhar nostálgico e certa melancolia na voz ela me diz que a comida está pronta, e que vai buscar meu avô para almoçarmos todos juntos. Talvez ela também não me admire.
Vovô sentou-se à mesa, me olhou com um sorriso terno e disse, Você gostou do carrinho de madeira que o vovô fez para você? Se você comer tudo direitinho, sem deixar nada no prato, podemos pintá-lo depois do almoço, que tal?
Vovô hoje acordou há sete anos atrás. Eu tinha um carrinho vermelho, um dos poucos presentes que ganhei de meu pai na infância. Uma tarde, enquanto eu brincava com outros meninos na rua, um vizinho sem querer o quebrou, passei a noite inteira chorando aquele carrinho. No dia seguinte vovô, que passou a vida montando estantes, portas, armários, e móveis de madeira para os outros, levantou bem cedo, juntou uns pedaços de sobras madeira e me fez outro carrinho. Quando eu cheguei da escola foi uma festa. Eu quase não acreditava naquele carrinho, embrulhado em um laço vermelho em cima da minha cama.
Nós ali almoçando, os brilhantes olhos de meu avô, e eu respondi: claro vovô, vamos pintar o carrinho. Minha mãe me olhou com reprovação, mas escolheu o silêncio. Almocei correndo e anunciei que iria até o quarto pegar o carrinho. Corri na papelaria do outro lado da rua de casa, comprei tinta vermelha. Voltei para a cozinha a tempo de vovô não ter mudado de memória, sentamos no quintal e juntos repintamos nosso carrinho. Ele olhava para a criança que eu fui um dia. Não sei bem quando que esse sorriso se perdeu de meu avô. Olhei para a janela da cozinha, minha mãe lavava a louça chorando. Suas lágrimas não me alcançavam.

Camila de Mario

Viúvas Comendo

Eram cinco e meia da tarde e Lúcia, Teresa, Rita e Fátima pararam no café da Livraria. Como é culturalmente esperado em momentos como e...