sexta-feira, 14 de julho de 2017

Um trecho do novo romance de Evandro Affonso Ferreira, ainda inédito.


 
















Trechos do novo romance - Nunca mais outra vez noutra sombra, de Evandro Affonso Ferreira

 
Ela? Inquieta, tempo todo enrodilhada nos repetidos embates amorosos e acadêmicos – também sabia à semelhança de seu timoneiro Lucrécio, que, tal como os cães encontram muitas vezes os covis, cobertos pela folhagem, da fera que vagueia pelos montes, uma vez que tenham apanhado o rasto certo, assim também ela própria, Rosa dos trópicos, por si mesma, poderia ir tirando umas coisas das outras e penetrar em todos os esconderijos ocultos e arrastar de lá para fora a verdade. Sabia, mas, sua eterna inquietude e seus repetidos embates amorosos e acadêmicos, conseguiam desviá-las desses sumidouros camuflados, nos quais encontraríamos a geradora de todas as exatidões. Havia muita sarabulhada, muita dessimetria, e, ao mesmo tempo, imprevisíveis perspicácias dentro daquela mente muitas-vezes-implacável-muitas-vezes-piedosa. Objetivo? Romper fronteiras – vivia ultrapassando barreiras, em muitos casos, nem mesmo ela sabia motivo pelo qual alcançava seus propósitos. Mulher ígnea de afazeres múltiplos – fé fundamentada no êxito. Viveu seus últimos anos de existência completamente só num pequeno sítio numa pequena cidade do interior peruano, cuidando de seus dezesseis cães de pedigrees duvidosos, e relendo seus quase duzentos preciosos livros, todos surrados, em especial o surradíssimo Da Natureza Das Coisas, dele, Lucrécio. Mas foi com a velhice, e não com ele, o sombrio e luminoso poeta latino, que ela aprendeu que quase nada de sólido existe nas coisas; que, quando algo, alterando-se, sai dos seus limites, logo acarreta a morte daquilo que antes existiu – sua volúpia, por exemplo, sim, a volúpia dela, aquela que foi durante décadas a Rosa de Luxemburgo dos trópicos, trêfegos trópicos. No epílogo de sua vida, já havia perdido parceiro às-vezes-estoico-às-vezes-epicurista (morto num desastre aéreo) ficando impossibilitada de perguntá-lo, vez em quando, real identidade das sombras ilustres que ela continuava vendo nas paredes: Platão ou Plotino? Brecht ou Beckett? Manet ou Monet?



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